Moz Inquieto

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Voz da juventude que pensa, questiona e transforma Moçambique. Aqui, inquietar é o primeiro passo para mudar.

25/08/2026

MARIA E A CARTEIRA QUE FICOU VAZIA

"Há segredos que uma pessoa guarda por medo de falar, mas que acabam falando por ela quando já é tarde demais."

Às quatro horas e vinte minutos da madrugada de sábado, Maria acordou com uma dor que a fez agarrar o lençol.

Ficou imóvel.

A casa estava mergulhada no silêncio. Do quarto dos pais não vinha qualquer ruído. Na cozinha, o relógio de parede marcava o tempo com pequenos estalos. Lá fora, um cão ladrou duas vezes e voltou a calar-se.

Maria respirou fundo. Esperou. A dor diminuiu.
Por alguns minutos, acreditou que tudo f**aria bem.
Virou-se para o outro lado e fechou os olhos.
Então sentiu o sangue.

Levantou-se depressa, mas as pernas falharam. Sentou-se novamente na cama e ficou olhando para as próprias mãos.
Não chorou.
Ainda não.
Apenas pensou na mãe.
Pensou no pai.
Pensou na escola.
E pensou que ninguém podia descobrir.

Dois dias antes, Maria tinha entrado numa farmácia acompanhada por uma colega.
Usava o uniforme escolar.
Trazia a mochila às costas e caminhava com a cabeça baixa.

Aquela farmácia f**ava a poucos metros da sua casa. Era o tipo de lugar por onde ela passava quase todos os dias sem prestar atenção.
Naquele dia, porém, cada passo parecia denunciar o segredo que carregava.

Não procurara um médico.
Não conversara com uma enfermeira.
Não procurara um serviço de saúde.
Havia apenas uma receita entregue pela irmã do namorado chamado Quizito.
Foi ela quem dissera que aqueles comprimidos poderiam resolver tudo. "Depois disso, acabou o problema."

Era assim que parecia.
Simples. Rápido. Definitivo.
Mas ninguém naquela pequena conversa tinha falado do perigo de uma decisão tomada sem avaliação médica.

Maria comprou os medicamentos.
Pediu que não fizessem perguntas.
Saiu.
Do lado de fora, ficou alguns segundos parada.
A colega perguntou se queria voltar para casa.
Maria respondeu que não.
Precisava terminar aquilo.

Quizito tinha dezassete anos.
Ainda frequentava a escola.
Quando Maria lhe contou que estava grávida, o rapaz ficou vários segundos sem responder.
Não pensou primeiro na criança.
Pensou no pai.
Depois pensou na mãe.
Pensou na escola.
Pensou nos comentários dos amigos.
Pensou no dinheiro que não tinha.
O medo foi ocupando todos os espaços da sua cabeça.

A irmã percebeu a situação e decidiu intervir.
Foi assim que aquela receita chegou às mãos de Maria.
Na noite daquela sexta feira, Maria ficou na casa de Quizito.
Ele queria ter a certeza de que ela tomaria os comprimidos.
Não confiava que ela tivesse coragem de fazê-lo sozinha.
Talvez porque também tivesse medo.
Talvez porque soubesse que, se Maria mudasse de ideia, os dois teriam de enfrentar uma realidade para a qual nenhum deles estava preparado.

Maria tomou a medicação.
Depois f**aram sentados na cama.
Não conversaram muito.
O silêncio entre os dois era estranho.
De vez em quando, Quizito olhava para ela.
Maria permanecia com os olhos fixos no chão.
Nenhum dos dois sabia que aquela seria a última noite que passariam juntos.

Pouco antes do amanhecer, Maria começou a sentir dores.
Quizito acordou com os gemidos.
Chamou a irmã.
A situação assustou os dois.
Maria estava a sangrar.
Tentaram ajudá-la como sabiam, oferecendo-lhe água quente e comprimidos para aliviar o desconforto.

Depois de algum tempo, ela pareceu melhorar.
Conseguiu levantar-se.
Quizito pensou que o perigo tinha passado.
Maria também quis acreditar.
Mas havia algo no rosto dela que dizia o contrário.

Quando o céu começou a clarear naquele sábado, Maria pediu para ir para casa.
Não queria que os pais percebessem a sua ausência.
Saiu antes que a família acordasse.
Caminhou pelas ruas quase vazias.
A mochila pendia de um dos ombros.
A cada passo, parava por alguns segundos.
Quando finalmente chegou à sua casa, abriu a porta com cuidado.
Entrou.
Ninguém a viu.
Foi diretamente para o quarto.
Tirou os sapatos.
Deitou-se.
E dormiu.

A mãe foi a primeira a acordar.
Como fazia todos os dias, levantou-se para preparar o pequeno-almoço.
Passou pelo quarto da filha.
A porta estava fechada.
Não estranhou.
Maria costumava dormir até mais tarde aos sábados.

Foi para a cozinha.
Preparou água.
Acendeu o fogão.
Quando estava prestes a começar os trabalhos da manhã, ouviu um ruído vindo do quarto.

Parou. Escutou.
Nada.
Voltou a trabalhar.
Alguns minutos depois, ouviu novamente.
Dessa vez, parecia um gemido.

A mãe largou o que tinha nas mãos.
Caminhou até ao quarto.
Bateu na porta.
"Maria?"
Nenhuma resposta.
Abriu.
O grito que soltou acordou toda a casa.

Maria estava caída ao lado da cama.
Havia sangue no chão.
A menina tentava respirar enquanto se contorcia de dor.
A mãe ajoelhou-se.
Chamou pelo marido.
O pai entrou e ficou parado durante um instante.
Depois pegou na filha.
Foi nesse momento que Maria finalmente chorou.

"Não quero morrer."
O pai apertou-a contra o peito.
"Não vais morrer, minha filha."
Disse aquilo sem saber se era verdade.
Disse porque era pai.
E porque, naquele momento, um pai precisa mentir para a própria esperança.

O vizinho trouxe o carro.
Não havia tempo para procurar uma ambulância.
A mãe entrou no banco traseiro e segurou Maria.
O pai sentou-se à frente.
O carro arrancou.
A estrada parecia não terminar.
Maria estava cada vez mais fraca.

A mãe passava a mão pelo cabelo da filha.
"Fala comigo."
Maria abriu os olhos.
"Desculpa, mãe."
Aquelas duas palavras atravessaram o coração da mulher.
Ela ainda não sabia de quê a filha estava a pedir desculpa.
Só sabia que não queria ouvir aquele pedido.
"Não precisas pedir desculpa. Aguenta só mais um pouco."
Maria tentou responder.
Não conseguiu.
A cabeça caiu lentamente sobre o peito da mãe.

O carro chegou ao hospital.
Os profissionais correram para recebê-la.
A mãe ficou do lado de fora.
Esperou.
Um minuto.
Dois.
Dez.
Depois viu um profissional aproximar-se.

Não precisou ouvir muitas palavras.
O rosto dele já tinha contado tudo.
Maria tinha morrido.
A mãe levou as mãos à cabeça.
O pai sentou-se no chão.
Nenhum dos dois sabia como voltar para casa.

Naquela tarde, a casa encheu-se de pessoas.
Vizinhos.
Familiares.
Mulheres que abraçavam a mãe.
Homens que conversavam em voz baixa.
Mas ninguém conseguia preencher o espaço deixado por Maria.

O quarto permanecia aberto.
A cama ainda estava desarrumada.
Sobre uma cadeira estava o uniforme escolar que ela usaria na segunda-feira.
A mãe entrou no quarto sozinha.
Sentou-se na cama.
Pegou no uniforme.
Aproximou-o do rosto.
E, pela primeira vez desde o hospital, chorou sem tentar esconder.
"Minha filha..."
Foi tudo o que conseguiu dizer.

No dia seguinte, uma senhora apareceu em casa.
Tinha visto Maria entrar numa farmácia dois dias antes.
Estava acompanhada por outra jovem.

A informação despertou a atenção do pai.
Ele precisava descobrir o que havia acontecido.
Foi até à farmácia.
Perguntou pelos medicamentos.
Os funcionários explicaram que não podiam simplesmente revelar informações sobre uma cliente.

O pai insistiu.
Não queria vingança.
Queria respostas.

Depois de conversas e procedimentos internos, recorreram às imagens de vigilância.
A gravação mostrou Maria entrando.
Depois mostrou a jovem que a acompanhava.
O pai ficou olhando para o monitor.
A imagem era silenciosa.

Maria entrava na farmácia como qualquer adolescente.
Ninguém que a visse naquele momento poderia imaginar que, dois dias depois, estaria morta.
O pai baixou a cabeça.
Foi então que percebeu.
A filha tinha carregado aquele segredo sozinha.
Talvez tivesse passado por ele todos aqueles dias.
Talvez tivesse sentado à mesa com a família.
Talvez tivesse dormido sob o mesmo teto.
E ninguém soubera.

A tristeza transformou-se em raiva.
O nome de Quizito apareceu.
O pai prometeu encontrá-lo.
Disse que o rapaz haveria de responder pelo que acontecera à filha.

A notícia espalhou-se.
Chegou à casa de Quizito naquela noite.
O rapaz ouviu tudo em silêncio.
Não discutiu.
Não tentou fugir.
Sentou-se na cama.
Ficou olhando para o chão.
A irmã entrou no quarto.
Quizito não levantou os olhos.
"Ela morreu?"
A irmã não respondeu.
Ele já sabia.

Passou a mão pelo rosto.
Começou a chorar.
Era um choro baixo, quase infantil.
Aquele rapaz que poucas semanas antes fazia planos para o futuro agora não conseguia imaginar o dia seguinte.
Naquela noite, não dormiu.

Na manhã seguinte, a mãe de Quizito chamou pelo filho.
Não respondeu.
Chamou novamente.
Silêncio.
Abriu a porta.
E gritou.
A família correu.
Quizito tinha tirado a própria vida.

A notícia espalhou-se pela comunidade como uma segunda tempestade.
Na casa de Maria, ninguém comemorou.
O pai, que horas antes queria encontrá-lo, ficou sentado durante muito tempo sem dizer palavra.
A mãe olhou para ele.
Nenhum dos dois precisava explicar o que estavam pensando.

Agora havia duas famílias de luto.
Duas mães chorando.
Dois pais tentando compreender como os filhos tinham desaparecido tão depressa.
E uma comunidade inteira perguntando como uma história que começou com dois adolescentes assustados terminou com duas mortes.

Na segunda-feira, a escola abriu normalmente.
Os alunos entraram nas salas.
Os professores deram aulas.
O recreio aconteceu.

Mas havia uma ausência que ninguém conseguia ignorar.
A carteira de Maria continuava vazia.
Sobre ela estava o caderno que ela usava nas aulas.
A professora entrou, viu a carteira e ficou alguns segundos parada.
Depois abriu o caderno.
Na última página havia um exercício inacabado.
No canto, Maria tinha escrito uma frase que parecia não ter relação nenhuma com a matéria: "Ainda tenho muita coisa para viver."

A professora fechou o caderno.
Não conseguiu continuar.
Virou-se para a turma e pediu que todos fizessem silêncio.
Naquele dia, ninguém queria ouvir uma explicação.
Todos já tinham entendido.
Maria não tinha tido oportunidade de viver aquelas coisas.

AOS ADOLESCENTES

A história de Maria e Quizito não precisa ser a história de ninguém que esteja lendo estas linhas.

Se você é adolescente e descobriu uma gravidez inesperada, não desapareça, não enfrente o medo sozinha e, sobretudo, não tome medicamentos por indicação de amigos, namorado, familiares ou pessoas sem formação de saúde.

Converse com os seus pais.

Se não conseguir falar com eles, procure um avô, uma avó, um tio, uma tia, um professor, um orientador ou outro adulto responsável em quem confie.
Procure também um profissional de saúde.

Talvez você tenha medo de ser repreendido.
Talvez tenha vergonha.
Talvez pense que a sua família nunca vai entender.
Mas uma conversa difícil pode ser suportada.
Uma vida perdida não pode ser recuperada.

Não deixe que a vergonha escolha por você.
Não transforme o medo num segredo.
E nunca pense que pedir ajuda é sinal de fraqueza.

Às vezes, a coragem não está em esconder o problema.
Está em bater à porta de alguém e dizer:

"Eu preciso de ajuda."

Porque pode haver uma solução para o problema que você está enfrentando.
Mas, para encontrá-la, você precisa primeiro continuar vivo.
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24/08/2026

A ÚLTIMA XIMA DA MÃE

Naquela manhã, o sol nasceu sem pressa sobre a pequena comunidade de Chicuque, em Inhambane, como se também soubesse que havia dias em que a vida precisava caminhar devagar.

Na casa de paredes de barro e cobertura de capim, Dona Amélia acordou antes de todos. Já não tinha a força dos seus trinta anos, quando carregava lenha na cabeça, água numa lata e ainda encontrava forças para sorrir aos filhos. Agora, os cabelos brancos cobriam-lhe a cabeça e os joelhos reclamavam sempre que se levantava.
Mesmo assim, naquela manhã, levantou-se.

Foi até ao pequeno s**o de farinha de milho que guardava no canto da cozinha. Abriu-o e ficou alguns segundos olhando para dentro.
Havia farinha suficiente para preparar apenas uma refeição.

Amélia respirou fundo.

Naquele dia, o único filho, Mateus, regressaria depois de muitos anos ausente.
Ela não sabia se ele voltaria com dinheiro, com roupa nova ou com as mãos vazias.
Para ela, nada disso importava.
Queria apenas ver o filho.

Acendeu o fogo e começou a preparar a xima.
Enquanto mexia a panela, as lembranças vieram sem pedir licença.
Lembrou-se de Mateus pequeno, correndo descalço pelo quintal. Lembrou-se das vezes em que ele chorava de fome e ela fingia não ter fome para entregar-lhe a última colherada.

Lembrou-se também da primeira vez que ele saiu da comunidade.
Tinha dezasseis anos.
Disse que iria para Maputo procurar trabalho.
Amélia não dormiu naquela noite.
Na manhã seguinte, acompanhou-o até à estrada.

Não tinha dinheiro para lhe comprar sapatos novos. Deu-lhe os seus próprios chinelos, embora fossem grandes demais para os pés do rapaz.
Depois abraçou-o.
Foi um abraço comprido.
Aquele tipo de abraço que uma mãe dá quando não sabe quando voltará a abraçar o filho.
Mateus partiu para Maputo.

Nos primeiros tempos, a vida na cidade foi muito diferente daquilo que imaginara.
Sem dinheiro, sem contactos e sem uma profissão, começou a trabalhar no quintal de um homem, fazendo pequenos trabalhos de limpeza, carregando areia, cortando capim e ajudando em tudo o que aparecesse.

O trabalho era pesado.
O dinheiro era pouco.
Mas Mateus tinha uma coisa que ninguém lhe podia tirar: vontade de vencer.
Enquanto trabalhava durante o dia, decidiu continuar os estudos.
À noite, cansado, pegava nos livros e estudava.
Houve dias em que o corpo pedia descanso, mas ele insistia.

Aos poucos, foi avançando nos estudos.
O rapaz que chegara a Maputo com uma pequena mala e os chinelos da mãe começou a construir, passo a passo, uma nova vida.
Concluiu os estudos.
Depois formou-se.

Com a formação, conseguiu finalmente um trabalho digno e estável.
O salário melhorou.
Alugou uma casa.
Mais tarde, conheceu uma mulher, casou-se e constituiu família.
Vieram os filhos.

A vida que um dia parecia impossível começou a tornar-se realidade.
Mateus sentia orgulho de tudo o que havia conquistado.
Mas havia uma coisa que continuava sempre por fazer.
Voltar para casa.

No início, dizia a si mesmo que regressaria assim que recebesse o próximo salário.
Depois dizia que iria quando tivesse férias.
Mais tarde, prometia que levaria a esposa e os filhos para conhecerem a avó.
Mas sempre aparecia alguma coisa.
O trabalho. As despesas. Os estudos. Os filhos. A construção da casa. Um compromisso. Outro compromisso.
E a viagem para Chicuque f**ava sempre para depois.

Até os telefonemas foram f**ando raros.
Às vezes, lembrava-se da mãe e pensava em telefonar.
Mas o dia terminava.
No dia seguinte, surgia outra preocupação.
Quando finalmente se lembrava, já haviam passado semanas ou meses.

Dona Amélia, porém, continuava esperando.
No início, perguntava aos vizinhos se alguém tinha notícias do filho.
Depois deixou de perguntar.
Não porque tivesse deixado de esperar.
Apenas porque aprendeu a esconder a saudade.

Todos os domingos, depois da missa, caminhava até à estrada e f**ava alguns minutos olhando para os carros que passavam.
As pessoas diziam que ela estava louca.
Ela nunca respondeu.
Mãe nenhuma f**a louca por esperar um filho.
Apenas aprende a conversar com a esperança.

Naquela tarde, finalmente, um homem apareceu na estrada.
Trazia uma pequena mala.
Era Mateus.
Amélia reconheceu-o antes mesmo de ele chegar ao portão.
O cabelo estava diferente. O rosto estava mais velho. Os ombros pareciam carregar anos de cidade.
Mas para ela continuava sendo o menino que um dia partira para Maputo usando os seus chinelos.

Ela não correu.
As pernas já não permitiam.
Apenas abriu os braços.
Mateus aproximou-se e abraçou a mãe.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois conseguiu falar.
Amélia colocou as mãos no rosto do filho.
Passou os dedos pelas suas bochechas como quem confirma se aquela pessoa era realmente carne e osso.
Depois sorriu.

Naquela noite, ela serviu a xima.
Era pouca. Muito pouca.
Mateus percebeu imediatamente.
Olhou para a panela e depois para a mãe.
Ela fingiu não perceber.
Serviu-lhe a maior porção.

Quando Mateus insistiu para que ela comesse, Amélia respondeu apenas com um sorriso e disse que já tinha comido.
Era mentira.
Uma mentira pequena, mas pesada.
Mateus comeu.
Amélia ficou olhando.
Cada colherada parecia devolver-lhe um pedaço da infância que perdera.
Naquela noite, mãe e filho dormiram na mesma casa.

Mateus ficou acordado durante muito tempo.
Ouvia a respiração da mãe no outro lado do quarto.
Pensou em tudo aquilo que perdera.
Os aniversários.
As doenças.
As festas.
As dificuldades.
Os anos em que a mãe envelheceu enquanto ele estava longe.

Pensou também na própria caminhada.
Recordou os dias em que trabalhava no quintal de outras pessoas.
Recordou as noites em que estudava cansado.
Recordou a formação.
O primeiro emprego digno.
O casamento.
Os filhos.
A casa.
Tudo aquilo que construíra.
E então percebeu uma coisa que doeu mais do que todas as outras.

Ele tinha passado anos tentando construir uma vida melhor para si e para a sua família, mas, enquanto construía o próprio futuro, a mãe estava f**ando sem futuro.

Havia conseguido tudo aquilo que um dia sonhara.
Só não tinha conseguido voltar a tempo.
Na manhã seguinte, Mateus acordou cedo.
Encontrou a mãe sentada junto à porta.
O sol iluminava-lhe o rosto.
Ela parecia tranquila.
Mateus aproximou-se.
Dona Amélia sorriu.
Mas não respondeu.
Mateus tocou-lhe na mão.
Estava fria.

Naquela manhã, a mãe morreu.
Sem pedir nada.
Sem reclamar de nada.
Sem cobrar os anos de ausência.
Morreu depois de ver o filho voltar.

No enterro, Mateus ficou diante da sepultura durante horas.
As pessoas foram embora uma após outra.
Quando ficou sozinho, tirou os chinelos que levava nos pés.
E colocou-os sobre a terra.
Eram novos.
Comprara-os em Maputo.
Mas nunca chegaram a servir para os pés da mãe.
Mateus chorou como uma criança.
Porque finalmente compreendeu que havia presentes que chegavam tarde demais.

Anos depois, Mateus tornou-se um homem conhecido na região.
Construiu uma casa grande.
Abriu um pequeno negócio.
Ajudou muitas famílias.
Mas nunca permitiu que alguém lhe dissesse que tinha vencido na vida.
Sempre respondia que sucesso nenhum compensa chegar tarde demais à porta de uma mãe.

Na entrada da sua casa, guardava uma velha fotografia de Dona Amélia.
Ao lado dela, mantinha uma pequena panela de barro.
Era a panela em que a mãe preparara aquela última xima.

Quando os filhos de Mateus perguntavam por que ele guardava aquilo como um tesouro, ele contava a história.
E terminava sempre da mesma maneira:
A última refeição que uma mãe oferece ao filho pode parecer apenas comida.
Mas, às vezes, é o último pedaço da própria vida que ela coloca no prato.

Por isso, enquanto houver mãe esperando numa casa simples, não espere f**ar rico para visitá-la.
Não espere ter carro.
Não espere construir uma casa.
Não espere ter dinheiro.

Vá.
Sente-se ao lado dela.
Coma a xima que houver.
Segure a mão dela.
E diga que a ama.

Porque existem despedidas que não avisam.
E existem mães que passam a vida inteira esperando apenas uma coisa:
ver o filho voltar para casa.
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23/08/2026

GASOLINA, O SOLDADO AZARADO

CAPÍTULO FINAL

Enquanto o grupo destacado do quartel seguia em direção à casa de Isa, a situação naquela vizinhança começava a tomar outro rumo.
O silêncio prolongado da casa já tinha deixado de ser apenas uma curiosidade.
Era agora motivo de preocupação.

Desde cedo, alguns vizinhos tinham estranhado o desaparecimento repentino de Isa. Ela não fora vista no quintal, não respondera aos chamados e a porta permanecia fechada.

Uma das vizinhas aproximou-se e bateu.
Nada.
Bateu novamente, desta vez com mais força.
Silêncio.
Chamou pelo nome de Isa.
Nenhuma resposta.

Pouco a pouco, outros moradores aproximaram-se. As pessoas começaram a trocar olhares e a fazer perguntas.
Alguns pensaram que Isa poderia estar doente.
Outros imaginaram que tivesse acontecido alguma coisa durante a noite.
Até que alguém sugeriu arrombar a porta.
A ideia provocou hesitação.
Ninguém queria invadir a casa de uma pessoa sem autorização.
Mas o silêncio já parecia demasiado estranho.

Depois de algumas tentativas de chamar pelos moradores, decidiram forçar a porta.
Quando finalmente conseguiram entrar, f**aram paralisados.
Isa estava ali.
E Gasolina também.

Os dois encontravam-se numa situação desesperadora, chorando de dor, medo e impotência.
Aquela cena era tão inesperada que, durante alguns segundos, ninguém conseguiu dizer uma palavra.
Uma das mulheres levou as mãos à cabeça.
Um homem saiu imediatamente para chamar mais pessoas.
Em poucos minutos, a notícia espalhou-se pela vizinhança.
Gasolina, o militar que ninguém sabia onde estava, tinha sido encontrado dentro da casa de Isa.
E o mais estranho era que ele não conseguia sair.

A casa, que poucas horas antes guardava um segredo entre duas pessoas, transformara-se no centro de uma agitação comunitária.
A tensão instalou-se.
Alguns moradores queriam saber como aquilo tinha acontecido.
Outros falavam em traição.
Havia quem defendesse Isa.
Havia quem defendesse o marido ausente.
E havia também quem entendesse que Gasolina, por ter entrado naquela casa sabendo que Isa era casada, deveria responder pelo sucedido.

Enquanto a população discutia, o grupo militar finalmente chegou.
Os homens entraram com ar de autoridade, diziam que aquilo era abate.
Esperavam encontrar um colega ferido, talvez vítima de algum acidente.
Mas aquilo que encontraram ultrapassava qualquer previsão.
Gasolina estava ali.
E estava fisicamente preso a Isa.
Os militares f**aram atónitos.
Por alguns instantes, ninguém soube como proceder. Nenum manual de guerra ensinava como separar duas pessoas coladas.
O comandante do grupo aproximou-se, avaliou a situação e percebeu que não seria possível simplesmente retirar o colega dali.

A prioridade passou imediatamente a ser evitar que alguém se ferisse.
Um dos militares telefonou para o quartel.
Relatou a situação com toda a seriedade possível.
Do outro lado da chamada, o comandante ouviu atentamente.
Depois de alguns segundos, veio a ordem:
Deveriam permanecer no local.
Não deveriam tentar separar os dois por meios improvisados.
Deveriam garantir a segurança de Gasolina e Isa e aguardar a chegada das autoridades competentes.

A partir daquele momento, duas linhas de resolução começaram a formar-se.
De um lado estava a população.
Alguns moradores, revoltados com o sucedido, defendiam que Gasolina deveria ser sancionado ali mesmo pelo que consideravam uma grave ofensa ao marido de Isa.
A tensão aumentava.
Bastava uma palavra mal colocada para que a situação saísse do controlo.

Do outro lado estava a Polícia da República de Moçambique, em coordenação com as Forças Armadas, procurando encontrar uma solução que permitisse retirar Gasolina daquele lugar com segurança e preservar a integridade física de todos os envolvidos.

Os militares formaram uma espécie de barreira humana entre o grupo mais exaltado da população e a casa.
Ninguém queria transformar uma situação já absurda numa tragédia.
Enquanto isso, a informação chegava ao comando distrital da PRM.

O comandante distrital decidiu procurar o único homem que talvez pudesse resolver aquela situação sem violência.
O marido de Isa. O camionista.
Telefonou para ele.
Por sorte, o homem ainda estava em solo pátrio.

Encontrava-se numa zona fronteiriça, aguardando na longa fila dos agentes alfandegários para prosseguir viagem.
O telefone tocou.
Ele atendeu.
Do outro lado, ouviu uma voz oficial.
O comandante da polícia explicou que havia ocorrido uma situação grave na sua residência e que a sua mulher estava envolvida.
O camionista ficou em silêncio.
O comandante continuou.
Contou-lhe que Isa estava presa a outro homem dentro de casa e que uma multidão começava a concentrar-se no local.
O homem demorou alguns segundos para compreender aquilo que estava a ouvir.
Depois perguntou, quase sem acreditar:
Como assim, presa?
O comandante explicou que a situação era real e que Gasolina, um militar, encontrava-se no interior da residência.

A tensão do outro lado aumentou.
O camionista mostrou resistência.
Disse que estava longe, que tinha uma viagem para cumprir e que não podia simplesmente abandonar tudo.
Mas o comandante foi firme.
Ordenou-lhe que regressasse imediatamente.

Explicou que a presença dele poderia ser decisiva para resolver o problema.
E fez um alerta ainda mais sério, quase uma ameaça.
Se aquela situação degenerasse e alguém sofresse danos físicos, ele também poderia ser responsabilizado caso tivesse condições de regressar e não o fizesse.
O homem permaneceu calado.
A fila da fronteira avançava lentamente diante dele.

Durante alguns minutos, pareceu lutar consigo próprio.
Por um lado, havia a traição.
Por outro, havia a vida da mulher.
Havia também o homem que estava preso a ela e uma população cada vez mais agitada.
Finalmente, cedeu.
Virou o camião.
E iniciou o caminho de regresso.

Foram três dias de viagem.
Três dias durante os quais a casa de Isa permaneceu sob vigilância.
A população continuou a comentar o caso.
Os militares mantiveram-se no local.
A polícia procurava evitar confrontos.
E Gasolina e Isa continuavam naquela situação humilhante e desesperadora, aguardando a chegada do único homem que, segundo a crença ligada ao tratamento tradicional, poderia desfazer aquilo que havia sido feito.

Quando o camionista finalmente chegou, encontrou uma cena que provavelmente jamais imaginara ver.
A rua estava cheia.
Havia moradores por todos os lados.
A polícia estava presente.
Militares permaneciam na residência.
E, dentro da casa, estava a mulher que ele deixara para trás antes de partir para mais uma viagem.

O homem entrou.
Durante alguns minutos, ninguém soube exactamente o que iria acontecer.
Segundo a crença relacionada ao tratamento tradicional que ele havia procurado no Malawi, era necessário que o próprio responsável pelo ritual desfizesse aquilo que tinha sido preparado.

O camionista realizou então o procedimento tradicional destinado a encerrar o efeito do tratamento.
Pouco depois, finalmente, Gasolina e Isa conseguiram separar-se.
A tensão que dominara aquela casa durante dias começou a desaparecer.
Os militares aproximaram-se imediatamente do colega.
Gasolina estava exausto. Envergonhado. Mas, sobretudo, aliviado.

Foi retirado do local sob proteção e levado de volta ao quartel.
Desta vez, não havia como fugir da explicação.
A formatura já tinha acontecido.
A ausência já tinha sido registada.
E agora todo o quartel conhecia a razão pela qual Gasolina não chegara àquela manhã.

Quanto a Isa, o destino tomou um rumo inesperado.
Durante algum tempo, a vizinhança continuou a comentar o caso.
Muitos esperavam uma separação imediata.
Outros acreditavam que o camionista jamais perdoaria.
Mas, segundo aquilo que passou a circular pela região, o homem decidiu perdoar a traição.

Mais do que isso.
Passou a levar Isa consigo nas viagens.
Malawi. Zimbábue. Zâmbia.
E outros lugares por onde o trabalho o obrigava a passar.
Dizia-se que, depois daquela experiência, o camionista já não gostava de deixar a esposa sozinha durante longos períodos.

E Gasolina?

Gasolina regressou ao quartel com uma história que dificilmente algum companheiro esqueceria.
Aquela não tinha sido apenas uma falta à formatura.
Tinha sido uma missão de resgate, uma intervenção policial, uma multidão enfurecida, três dias de espera e uma viagem de regresso que envolvera até o marido da mulher.

O soldado que naquela manhã não chegara à formatura acabara por ser perdoado e aprender uma lição que nenhum instrutor conseguiria ensinar num campo de instrução.

Há ausências que se explicam com um simples pedido de desculpas.
E há outras que obrigam um quartel inteiro a sair em missão.
Gasolina conseguiu transformar uma noite de imprudência numa ocorrência que entrou para a memória daquela unidade.

E, durante muito tempo, quando alguém faltava à formatura, havia sempre quem perguntasse, em tom de brincadeira, se o colega estava simplesmente atrasado ou se tinha colado à uma mulher alheia.
FIM
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22/08/2026

Um agradecimento especial aos meus novos fãs em ascensão! Rafael Cumbane, Faizal Juma Lambate, Antonio Manuel Mandire Mufambira, Flavio Jose Jose, Açussena Jaime Chambe, Josefina Sandra João, Zelio Langa, Tonito Malunga Jr., Jerry Da Filomena Charlize, Osvaldojualinho Chaleca, Rafique Lápis

22/08/2026

GASOLINA, O SOLDADO

3º CAPÍTULO

O que Gasolina e Isa não sabiam era que aquela casa carregava um segredo que nenhum dos dois poderia imaginar.

O marido de Isa, o camionista, não era simplesmente um homem que passava semanas ou meses viajando pelas estradas da região. Durante uma das suas passagens pelo Malawi, ouvira falar de um tratamento tradicional destinado a proteger o casamento contra traições.

A história dizia que, em caso de cópula ilícita ou extraconjugal, o tratamento poderia fazer com que o homem que se envolvesse com a mulher f**asse fisicamente preso a ela, impedindo a separação até que determinadas condições fossem cumpridas.

O camionista teria procurado esse tratamento precisamente por desconfiar das longas ausências e da vida que a esposa levava quando ele estava longe.
Para ele, aquilo era uma forma de proteger o casamento.
Para Gasolina, naquela madrugada, transformara-se numa combate que nenhum treinamento militar lhe ensinara a enfrentar.

Enquanto o jovem permanecia preso a Isa, o relógio avançava.
No quartel, entretanto, a rotina seguia o seu curso.

Às 04h45, os militares estavam formados para o controlo matinal.
Um a um, os homens eram identif**ados.
Até que chegou o nome de Gasolina.
Silêncio.
O comandante voltou a verif**ar a formação.
Nada. Gasolina não estava.
A ausência foi registada.
O comandante ficou alguns segundos em silêncio e limitou-se a dizer:
“Esse, quando regressar ao quartel, vai me sentir.”
Os militares compreenderam perfeitamente o signif**ado daquelas palavras.

Ninguém imaginava, porém, que o ausente estava a poucos quilómetros dali, numa situação que faria qualquer explicação parecer uma invenção.

Enquanto a manhã avançava, o sol começou a subir sobre Tete.
Na casa de Isa, o tempo parecia não querer passar.
Ela também f**ava inquieta.

Aquela não era uma mulher conhecida por dormir até tarde. As vizinhas estavam habituadas a vê-la cedo, a varrer o quintal, buscar água ou simplesmente circular pela zona.
Naquela manhã, porém, nada.
Uma das vizinhas passou diante da casa e estranhou o silêncio.
Outra reparou que a porta permanecia fechada.
Depois uma terceira começou a perguntar se Isa estaria doente.
As perguntas aumentavam à medida que o sol subia.
Ninguém sabia que, dentro daquela casa, existia uma situação muito mais complicada do que uma simples manhã de preguiça.

No quartel, a preocupação também crescia.
No início, os colegas tinham pensado que Gasolina talvez tivesse desertado na madrugada.
Depois imaginaram que pudesse estar bébado e dormido no caminho de regresso ao quartel.

Mas as horas passaram e nenhuma informação apareceu.
Foi então que decidiram telefonar-lhe.
O telefone chamou.
Uma vez. Duas. Três.
Finalmente, Gasolina atendeu.

Do outro lado da linha, porém, não estava o militar confiante que os colegas conheciam.
A sua voz estava quebrada.
Ele chorava.
O colega perguntou o que tinha acontecido.
Durante alguns segundos, Gasolina não conseguiu responder.
Quando finalmente falou, as palavras saíram entre soluços.
Disse apenas que tinha ido à casa de uma mulher e que havia acontecido uma coisa estranha.
O colega insistiu para que explicasse.
Foi então que Gasolina, já sem saber como descrever aquela situação, revelou:
“Colei numa mulher.”

Do outro lado da chamada instalou-se um silêncio absoluto.
O colega pensou que não tinha ouvido bem.
Pediu que repetisse.
Gasolina repetiu.
Desta vez, com a voz ainda mais desesperada.

A notícia espalhou-se rapidamente entre os militares.
Alguns f**aram incrédulos.
Outros pensaram que Gasolina estava a brincar.
Mas o estado emocional do colega ao telefone não parecia o de alguém interessado em fazer piada.

Os homens correram para comunicar a situação ao comandante.
O que inicialmente parecia apenas uma ausência disciplinar transformava-se agora numa ocorrência completamente inesperada.

O comandante ouviu atentamente.
Perguntou onde Gasolina estava.
Os colegas voltaram a telefonar.
Gasolina forneceu a localização.
As coordenadas da casa foram transmitidas sem demora.
O comandante ficou alguns instantes em silêncio.

Aquela manhã começara como tantas outras.
Agora havia um militar desaparecido da formatura, uma mulher que não aparecia em público, uma ocorrência estranha e uma localização que precisava ser verif**ada.

Uma pequena equipa foi preparada para seguir até ao local.
Ninguém sabia exactamente o que encontraria.
Mas todos sabiam de uma coisa:
"Gasolina tinha saído do quartel durante a noite sem autorização e colou numa mulher".
E agora precisava ser encontrado.

Naquele momento, porém, ninguém estava a sorrir.
Porque a missão ainda estava apenas a começar.
CONTINUA...
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