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25/11/2015
Gênero, sexualidade e poder
Os discursos sobre gênero e sexualidade estão cada vez mais recorrentes na nossa sociedade e foi através de estudiosos(as) e de movimentos feministas que esses discursos se tornaram possíveis. Michel Foucault, filósofo, historiador e teórico social, estudou a sexualidade de forma científica. Argumentou que no mundo ocidental, a partir do século XVIII e XIX, a identidade das pessoas passa a estar cada vez mais ligada a sua sexualidade. Em seu livro “A história da sexualidade”- A vontade de saber/ 1988, ele fala de uma repressão, onde o s**o se reduz a reprodução e o casal homem/mulher passa a ser um modelo a ser seguido. “A sexualidade é então cuidadosamente encerrada. Muda-se para dentro de casa. A família conjugal a confisca. E absorve-a inteiramente na seriedade da função de reproduzir. Em torno do s**o se cala. O casal, legítimo e procriador dita a lei”. (FOUCAULT, 1988 pág. 9) Foi um meio repressivo de exercer o poder na vida das pessoas. A igreja, escola, família e a medicina, buscavam controlar os indivíduos. A população era vista como um problema econômico e político; Passou-se então a analisar taxa de natalidade, idade de casamento, frequência das relações se***is, como torna-las fecundas ou estéreis; A medicina ganha espaço nos consultórios psiquiátricos, exames médicos, controle familiar, psicólogos são pagos para ouvirem falar da vida sexual dos outros, é preciso dizer a “verdade”, regula-se o s**o a fim de tornar o estado mais forte e potente. “Toda esta atenção com que nos alvoroçamos em torno da sexualidade, a dois ou três séculos não estaria ordenada em função de uma preocupação elementar: - Assegurar o povoamento, reproduzir a força de trabalho, reproduzir a forma das relações sociais, em suma, proporcionar uma sexualidade economicamente útil e politicamente conservadora?” (FOUCAULT, 1988 pág.37 e 38). A sociedade passa a ser maltratada pela hipocrisia. As identidades, o desejo e o prazer, tudo passa ser regulado por um discurso de interesse econômico, político e moral. Com isso, o dinheiro e o futuro da sociedade, foram ligados à maneira como as pessoas usavam seu s**o, produzindo assim uma sexualidade útil à economia. Assim, com o modelo que foi exposto acima, Foucault nos mostra como a sexualidade pode ser socialmente construída. As identidades se***is se constroem através das formas como as pessoas vivem a sua sexualidade. Homens e mulheres não são construídos somente por mecanismos de repressão, eles e elas o fazem também através de práticas e relações que instituem gestos, modos de ser e estar no mundo, formas de falar e agir, condutas e posturas apropriadas. As pessoas podem exercer sua sexualidade de diferentes modos, através da forma como vivem sua sexualidade, com parceiros do mesmo s**o, do s**o oposto, de ambos os s**os ou sem parceiro/a. É preciso então, entender que o gênero (feminino/masculino) é constituído da identidade das pessoas e nenhuma identidade sexual existe sem negociação ou construção; Nunca são dadas ou acabadas. E isso quem nos ajuda a entender melhor é a professora em educação e antropóloga pela universidade federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Guacira Lopes Louro. Em “Gênero, sexualidade e educação” ela nos fala já no primeiro capítulo do livro, sobre a “emergência do gênero”. O conceito de gênero está ligado diretamente ao movimento feminista contemporâneo. Há algum tempo, final da década de sessenta, houve grandes manifestações de protesto por parte dos jovens, estudantes intelectuais, mulheres e negros, também através de livros, revistas e jornais, por causa da grande insatisfação às formas tradicionais e teorias universais de segregação, silenciamento e discriminação. A partir desse momento de ebulição social, que feministas acadêmicas, com paixão política, fundam “os estudos da mulher” que irá reivindicar a invisibilidade das mulheres. A mulher que sempre foi vista no universo doméstico, mas que sem dúvida já trabalhava fora do lar, em indústrias e lavouras, rigidamente controlada por homens, sempre consideradas como secundárias, de apoio, ligadas a assistência e ao cuidado, passaram a ser observadas por estudos da área da antropologia e sociologia. Esses estudos comentavam a desigualdade social, política, econômica e jurídica. Denunciavam a opressão, o submetimento e criticavam as características tidas como “femininas”. “Seria, no entanto, um engano deixar de reconhecer a importância destes primeiros estudos. Acima de tudo, eles tiveram o mérito de transformar as até então esparsas referências às mulheres — as quais eram usualmente apresentadas como a exceção, a nota de rodapé, o desvio da regra masculina — em tema central. Fizeram mais, ainda: levantaram informações, construíram estatísticas, apontaram lacunas em registros oficiais, vieses nos livros escolares, deram voz àquelas que eram silenciosas e silenciadas, focalizaram áreas, temas e problemas que não habitavam o espaço acadêmico, falaram do cotidiano, da família, da sexualidade, do doméstico, dos sentimentos”. LOURO, Guacira Lopes, 1997 pág 18 e 19. Estudava- se as formas de trabalho, corpo, prazer, afetos, escolarização, inserção na economia, entre outros, passando a construir explicações e pretensões de mudança. A explicação de que homens e mulheres são biologicamente diferentes e que essas diferenças explicam a sua relação, será totalmente inconcebível. É, portanto, necessário demonstrar que a diferença biológica, ou melhor, sexual, serve para compreender a desigualdade social. É preciso observar a forma como estas características são apresentadas ou valorizadas, aquilo que se diz ou se pensa sobre feminino ou masculino, numa determinada sociedade e num dado período histórico. Não se deve observar apenas os s**os, mas sim tudo aquilo que é socialmente construído sobre os s**os. O gênero se constitui sobre corpos sexuados, não podemos negar sua biologia, mas temos que entender que aquilo que se constrói socialmente, o modo como as características se***is são compreendidas e representadas, que reproduzem as relações desiguais entre as pessoas, não podem ser justificadas nas diferenças biológicas e sim nos arranjos sociais, na história, nas formas de representação e nas condições de acesso aos recursos da sociedade. É no âmbito das relações sociais que se constroem os gêneros. Ainda que os estudos priorizem a análise sobre as mulheres, eles estarão agora de forma muito mais explicita, se referindo aos homens também. Busca-se intencionalmente evitar as afirmações generalizadas sobre “Homem” e sobre “Mulher”. É preciso pensar no plural, visto que as representações são diversas sobre mulheres e homens, dependendo da sociedade e do período histórico que as constituem. Mas o conceito de gênero não deve levar a pensa-lo como papéis masculinos e femininos. Papéis seriam padrões ou regras que uma sociedade estabelece para seus membros e que definem seus comportamentos, suas roupas, modos de se relacionar ou se portar. Através do aprendizado de papéis cada um(a) deveria entender o que é adequado ou inadequado para o homem ou para a mulher numa determinada sociedade. Mas ainda que utilizada por muitos, essa concepção é muito simplista, pois através das complexas redes de poder (instituições, discursos, símbolos e práticas) constituem hierarquia entre os gêneros. É preciso entender gênero como constituinte da IDENTIDADE das pessoas, assim como a etnia, classe ou nacionalidade, ou seja, algo que transcende o mero desempenho de papéis; é entender que o gênero faz parte da pessoa. As identidades se***is e de gênero estão inter-relacionada e frequentemente se confundem, mas não são a mesma coisa. Sujeitos masculinos ou femininos podem ser heterosse***is, homosse***is, bisse***is, e ao mesmo tempo podem ser brancos, negros, índios, ricos, pobres etc. O que importa é considerar que as identidades são sempre construídas, não se é possível determinar um momento, seja a do nascimento, adolescência ou maturidade, onde a identidade sexual ou de gênero foi estabelecida, elas são instáveis e passíveis de transformação. Por tanto a homofobia pode se expressar como uma espécie de terror em relação à perda do gênero, ou seja, o terror de não ser mais considerado como um homem e uma mulher “reais” ou “autênticos”. No entanto temos que entender que não existe uma mulher ou um homem, mas várias mulheres e homens que não são idênticos entre si, mas que podem ser solidários, cúmplices ou opositores. Ao aceitarmos que a construção do gênero é histórica e se faz incessantemente, estamos entendendo que as relações entre homens e mulheres, os discursos e as representações dessas relações estão em constante mudança e continuamente se transformando.
Assistir: Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=VEqHtKVaxx8 – Menino ou menina? Filme: http://megafilmeshd.net/tomboy/ - Tomboy (Céline, Sciamma, 2012)
Fonte: Gênero, sexualidade e educação - LOURO, Guacira Lopes, 1997
A história da sexualidade - A vontade de saber/ 1988. FOUCAULT, Michael.
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