Nguinho Inamuc
.. "[...] Nós somos aqueles que só na revolta encontram refúgio."
– Noémia de Sousa
Depois da crise
Estamos estagnados em Patrice
espreitamos pelas janelas e os hirtos faróis
ardem numa cinza luminescência
vagueiam numa ausente luz para os nossos sitiados temores
faiscam numa subita preferência ao novo dia que se resolve estático
observam ao redor que escurece dentro dos carros
dentro de nós que afinamos aos poucos os acumulados cansaços
dentro das ocas cabeças infladas pelas formigas das longas caminhadas
fazem-no num claro espelho a nossa tentativa de pensamento que decai
é como se estivessemos a tecer a monotonia
que se vulgariza nesse ponto sem combustível
depois o tédio que se assenta connosco de braços abertos
no chapa e que insistentemente regurgita o mesmo pesadelo
que partilha as nossas avenidas
ainda continuamos a estagnar a noite
que também se faz uma contingência de opor-se à manobras
aos cruzamentos ou alguns avanços para a casa
aos faróis que resistem à continuada despedida do brilho
há muitos litros de combustível para o nosso comburente cérebro
hoje
e nenhum pensamento passa disso
uma tentativa de ideia
uma sombra que se veste para aparar o tédio
uma morta estrada que nos ressuscita cansaços da peregrinação que se fez ontem
"Isso está mal" — grita o motorista
"E eles gostam disso" — responde um passageiro
"O combustível vai subir" — explica uma moça ao meu lado
e continuamos a olhar para aqueles faróis
e deles não chega luz suficiente para nos absolver desse lugar que submerge
Nguinho Inamuc
10.05.2026
X
uma antro emoção para a cardio cura
de inteira batalha para a sede
que me torna o receptor natural e único
do seu arqueo amor que repousa no último lito degrau
onde você tem a sua arca
que resguarda sangue e lágrimas,
filamentos para expurgar em mim todo pseudo
que persiste
Nguinho Inamuc
12/04/2026
01/04/2026
Mensagens aleatórias de Youtube
🧡
no que estou a pensar?
esse vinho
tinto
tem o seu aroma
ou você tem o aroma desse vinho
pior quando respiras quente e aquecida
perto de mim
esse poema tem a sua voz
ou você soa como esse poema
pior quando falas do amor e suicídio
no meu colo
e calas
e eu advinho o seu silêncio
essa noite tem o seu espírito
ou você se assemelha a essa noite
pior quando refrescas-me
jogando-me o ar na pele aliviando o peso dos dias corridos
e abro os meus braços
querendo-lhe ter-te toda
mas tudo é em vão, e sei disso,
porque você é vasta que não cabe em mãos nenhumas
03.03.2026
Nguinho Inamuc
Terceiro poema da série: Numa noite de tédio e amor
No que eu estou a pensar?
em como há dias como este
em que os pés querem estar esticados
descansando do chão
em como há dias como este
onde as palavras estragam tudo
dentro de nós
como se fossem motivo de erosão dessa coisa gigante
tão gigante que não me cabe na garganta e apetece-me tirar lágrimas
para acalentar essa ansiedade
penso
em como há dias como este
em que passo a tarde toda trancado
lendo Lilia Tavares
Álvaro Taruma e Leo Côte,
bebendo vinho e assisto à TV
para acalentar todo esse fogo gelado que se apetrechou dentro de mim
e que tudo isso não passa de ritual
para invocar a si.
Há dias como estes,
em que tudo o que faço só me lembra cada vez mais de como sou assim
frágil longe de si
de como sou um infeliz
em que a solidão só é solidão de verdade quando você está na equação
e sempre sinto o meu sangue a chamar por si
para estar aqui
do meu lado
acalentando já a mim mesmo que não respondo mais por mim
penso nisso
em como há dias como estes
em que tudo que existe não passa de uma pequena memória
em que suas lembranças estão todas lá
enterradas
para me tirarem as lágrimas secas
03.03.2026
Nguinho Inamuc
Segundo poema da série: Numa noite de tédio e amor
No que eu estou a pensar?
Em mim.
convenhamos, eu sou nada!
repito esse pensamento até ele durar
e nele tudo entrar
sem fazer confusão
penso infinitamente em mim hoje,
agora,
nessa pequena noite nublada
nesse grande instante
de vento soprando de todos os lados
das nuvens descendo até o nosso peito
e com as nuvens castanhas e frescas
Acende-se a mulher dos meus sonhos como lembrança
no meu coração
e ela faz o meu coração lembrar desse amor
que guardo comigo
todas as lembranças me veem junto
de uma única vez
Sobrecarregando os meus vasos e sangue
Tremo. Gaguejo mesmo no silêncio. Transpiro. Vibro e a minha língua se enrosca dentro da boca.
O meu corpo lembra de sentir tudo,
a sua voz, o seu olhar, o seu andar
até aquele seu jeito de negar
Nessa pequena noite que me entrou até nas memórias
Nguinho Inamuc
02.03.2026
| Primeiro poema da série: Numa noite de tédio e amor
Uma pequena utopia privada
depois da vida e do mundo,
das avenidas, das pessoas, do mar, do ar
caminhamos até a nossa casa
à qual ornaste com essências de lar
entramos à dois
despedimo-nos do mundo lá fora
dos medos, das incertezas, da pressa,
do tédio, da solidão
da descrença que se propaga pelo ar
das mensagens tristes de amor
advindas da morte da metáfora
entramos e nos trancamos dentro de um e do outro
e é por onde as nossas escolhas
ainda escolhem escolher
se faliu o livro arbítrio, ainda sim abraçamo-nos
alegres sabendo que abraçamos esse destino
que nos tece os caminhos
a noite também tranca-se por entre nossos peitos
como as estrelas que fervem
e acendem a noite sem se acabar
também o fazem dentro de nós
nessas nossas duas paixões que se fazem um único fogo
que nos arde sem se ver,
arde-nos profundamente sem se extinguir
arde-nos plenamente de cabeça aos pés
engole-nos a sucessão da Celeste permeando-nos os sentimentos
from stranges to friends, from friends to lovers
mas nós, meu amor, nunca retornamos a esse estágio inicial
de strangers again
depois segue-se o Bruno Mars talking to the moon
me talking to the feelings e coração talking to you
tudo isso ocorre eu estando asfixiado no seu peito
e você no meu presa entre meus braços
prendendo-te fervorosamente até sua pele fundir-se a minha
amarrando-te a cintura e apalpando-te toda
só para saberes-te minha
nessa sinfonia do silêncio escuto-te o batimento
no seu fôlego que lhe falta
na sua respiração deficiente
no brilho dos seus olhos que é o fogo tentando sair
dançar sob as estrelas até tudo ao redor ter esse aspecto de romântico
de atlântico
e amor ou mar espalhado
fazer isso com esmero de nós sermos nascentes
de um infinito rio de amor
e repetir esse lento movimento até caírem lágrimas
será de mim que cairão primeiro
esquecendo por instantes as palavras e deixando com que as lágrimas façam as juras de amor
e sempre dizendo que eu não não lhe quero perder,
meu amor,
se assim for o amor,
que se perca nos meus braços que não sabem mais nada
além de lhe tocar
Nguinho Inamuc
20.01.26
Atlântida
1.
Dessarte, o agora é esse caso de pressas,
um lugar no inventário dos vulcanos
acesos na irra dos primórdios deuses do fogo
aquecendo a tudo num céu primeiro de sangue, depois amarelo, agora cizento escuro
é uma pedra às rodas no tamanho desse futuro
que nos cai sempre aos pés e joelhos despreparados que esquecemos de inventar muco, escamas, e brânquias
há muito janeiro nas ruas que avisos nas lojas
O céu cai às metades como um inteiro muro
desfazendo-se na iminência desse fim Hadeano
2.
O mundo então é esse intervalo de liberdade naufragado,
já ninguém tem essa fraca condição de caminhar,
uma nuvem à solta no tamanho do limpopo
todo o futuro desembocou aqui
já nem há ceu e não há chão.
Tudo é uma sucessão das nuvens e líquidos.
a vida é toda ela um passeio no rio.
ou o rio é a vida toda passeando.
não andamos até ao rio, ele que se carregou para os nossos canais
arqueanos. oceanos. abissanos.
Declaração de amor
Abri a mão
da minha nuvem solidão
Para a brasa do seu chão coração
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