Pita Rondao Bulande
saindo do anonimato para o estrelato.
Eu Vou Contar
Eu vou contar uma história que talvez doa ouvir… mas que precisa ser contada.
Há muito muito tempo, Na cidade de Maputo, todas as noites, a Rádio Coração Aberto transmitia um programa muito ouvido chamado “Laços do Amor”. O locutor, Samuel Andrade, tinha uma voz calma e envolvente. Ele dizia sempre:
— “Se o amor ainda não bateu à sua porta, venha bater à nossa.”
Foi ali que Francisco Manuel, de 27 anos, decidiu tentar a sorte.
Francisco era um jovem sonhador. Tinha deficiência visual e ouvia com alguma dificuldade, mas isso nunca o impediu de acreditar que o amor também era para ele. Trabalhava como digitador numa pequena associação e era conhecido pela sua educação e bom humor. O que mais desejava era encontrar alguém que caminhasse ao seu lado — não apenas fisicamente, mas na vida.
Numa noite de sexta-feira, ele pediu ajuda a um amigo para ligar para o programa. Com a voz um pouco trémula, deixou o seu perfil:
— “Meu nome é Francisco Manuel. Tenho 27 anos, sou trabalhador, carinhoso e responsável. Procuro uma jovem simples, entre 23 e 25 anos, que queira um relacionamento sério.”
O locutor anunciou o perfil com entusiasmo. E Francisco passou a esperar.
Dias depois, numa tarde silenciosa, o seu telefone tocou.
— “Alô… é o Francisco?” — perguntou uma voz feminina suave.
Era Helena Duarte. Ela disse que tinha ouvido o perfil dele na rádio e que se interessou. Disse que gostava de homens sérios, que estava cansada de brincadeiras. Francisco sentiu o coração acelerar.
Começaram a conversar ao telefone. Como Francisco tinha dificuldades auditivas, passaram também a trocar mensagens pelo WhatsApp. As conversas fluíam. Falavam sobre sonhos, sobre família, sobre o futuro. Francisco começou a imaginar que, finalmente, a sua história de amor estava a começar.
Depois de alguns dias, ele pediu uma fotografia.
Helena enviou.
Francisco, como não podia ver, pediu ajuda a dois amigos para descreverem a imagem. Eles disseram que Helena aparentava ter mais de 30 anos e que era um pouco acima do peso. Francisco ficou em silêncio. No fundo, não era bem o que ele idealizava. Ele sempre imaginou alguém mais jovem, dentro das características que tinha anunciado na rádio.
Mas havia um detalhe maior do que tudo isso: ele estava cansado de estar sozinho.
“Talvez o amor não tenha o rosto que eu imaginei”, pensou.
E decidiu continuar.
Marcaram o primeiro encontro para um sábado à tarde. O local combinado era próximo a um muro pintado de amarelo, com um portão azul ao lado.
Francisco saiu cedo de casa, com a sua bengala branca firme na mão. Cada passo era dado com cuidado, mas também com esperança. Ele chegou ao local combinado e encostou-se ao muro.
Enquanto esperava, trocavam mensagens.
— “Já estou aqui, perto do muro amarelo”, escreveu ele.
— “Estou a aproximar-me”, respondeu Helena.
Minutos depois, uma mulher parou a poucos metros dele. Era Helena. Ela olhou para Francisco: um jovem magro, bem vestido, segurando a bengala branca com dignidade. Ele parecia ansioso.
Ela aproximou-se e cumprimentou:
— “Boa tarde.”
Francisco respondeu educadamente, sem saber que era ela.
Como não enxergava, pediu gentilmente:
— “Por favor, pode ler para mim uma mensagem que acabei de receber?”
Helena pegou no telefone dele. O coração dela disparou ao perceber que a mensagem era dela mesma. Mesmo assim, leu em voz baixa.
Francisco então pediu:
— “Pode responder para ela? Diga que estou parado ao lado do muro amarelo, perto do portão azul.”
Helena engoliu em seco. Com os próprios dedos, respondeu à sua própria mensagem.
Ela afastou-se alguns passos.
Poucos segundos depois, Francisco recebeu outra mensagem. Pediu novamente:
— “Pode ler para mim?”
Helena respirou fundo e leu:
— “Olha… eu não gostei de ti. És muito novo para mim. E ainda por cima estás aí com um pau na mão. Não estou preparada para namorar alguém assim. Procura outra.”
As palavras caíram como pedras.
Francisco sentiu o mundo encolher. O muro amarelo parecia mais frio. O portão azul parecia mais distante. Ele percebeu, pelo silêncio, que a mulher à sua frente era a mesma que tinha enviado a mensagem.
Mas ele não discutiu.
Apenas disse, com voz baixa:
— “Obrigado por ter vindo.”
Helena foi embora.
Francisco ficou ali parado por alguns minutos. Não chorou. Apenas segurou com mais força a sua bengala branca — aquela que para ele era independência, liberdade, caminho.
Voltou para casa sozinho. Cada passo era mais pesado do que na ida. Mas, dentro dele, algo permanecia vivo: a esperança.
Naquela noite, enquanto a Rádio Coração Aberto transmitia mais um programa, Francisco estava no seu quarto, em silêncio. Pensou em desistir. Pensou que talvez o amor não fosse para ele.
Mas depois lembrou-se de uma coisa:
A deficiência não estava nos seus olhos. Estava na visão de quem não soube enxergar o seu valor.
E eu conto essa história para lembrar que, às vezes, somos rápidos demais a escolher pela aparência e lentos demais a conhecer o coração. O amor verdadeiro não caminha pelos olhos — caminha pela alma.
Francisco continua a procurar. Não por alguém perfeito. Mas por alguém que saiba que uma bengala branca não define um homem.
E um dia, talvez, quando menos esperar, alguém não verá apenas uma bengala branca… verá um homem inteiro, digno de amor. ❤️
(Byody Bykhakha)
Pita Rondao Bulande saindo do anonimato para o estrelato.
Reflexão
Todos os dias somos cercados por vozes, distrações e atalhos que parecem inofensivos, mas que aos poucos nos afastam do foco e do propósito. Às vezes não é o erro escancarado que nos desvia, mas as pequenas concessões: o medo de tentar, a procrastinação, a comparação constante, a opinião alheia, o excesso de preocupações ou até relações que drenam a nossa paz.
Manter o foco exige determinação. Exige dizer “não” ao que não contribui, mesmo quando parece mais fácil ceder. Exige disciplina para continuar, mesmo quando o entusiasmo diminui. Quem sabe onde quer chegar aprende a proteger a sua mente, o seu tempo e o seu coração.
Nem tudo o que chama atenção merece espaço. Nem tudo o que agrada no momento constrói o futuro. Por isso, é preciso vigilância interior e coragem para se afastar daquilo que nos enfraquece espiritualmente, emocionalmente e até fisicamente.
Quando escolhemos o foco, escolhemos crescer. Quando somos determinantes, transformamos obstáculos em aprendizado e distrações em oportunidades de reafirmar o nosso propósito. Que hoje possamos avaliar o que tem roubado a nossa atenção e decidir, com firmeza, caminhar na direção daquilo que realmente vale a pena.
Manter o foco não é perder coisas — é ganhar sentido.
(Byody Bykhakha)
Pita Rondao Bulande saindo do anonimato para o estrelato.
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